Domingo, 07 de Junho de 2026
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“Nossa arte é tecnologia de sobrevivência”: o manifesto avassalador de Naruna Costa no Portal AL

A premiada atriz e diretora quebra tabus sobre o pioneirismo negro e o conservadorismo nas artes brasileiras

Redação AL
Por: Redação AL Fonte: Entrevista
07/06/2026 às 16h08
“Nossa arte é tecnologia de sobrevivência”: o manifesto avassalador de Naruna Costa no Portal AL
Naruna Costa - Foto de Capa: Nikolle Krüger

De Elza Soares aos palcos com Emicida, a premiada e genial Naruna Costa assume o protagonismo na coluna Nossa, Arraso! deste mês de junho. Em um desabafo avassalador ao Portal AL, a atriz e diretora destrincha as dores e as delícias do pioneirismo negro e dispara: "O Brasil ainda demora tempo demais para reconhecer que a nossa história já está acontecendo!"

 

AL- Naruna, você fez história ao se tornar a primeira diretora negra a receber o Prémio APCA de Melhor Direção em 2018 (por Buraquinhos), e seguiu acumulando conquistas históricas, como o Prêmio Shell2024 em Direção Musical. Como você enxerga o peso desse pioneirismo na sua carreira e de que forma esses prêmios ajudam a abrir caminhos para outras diretoras negras no teatro brasileiro?

NC- "O pioneirismo nos prêmios artísticos é uma faca de dois gumes. Se por um lado representa um marcador histórico essencial para artistas negros, por outro revela uma estrutura institucional tardia e preconceituosa. Ganhar o Prêmio APCA como a primeira diretora negra, no mesmo ano em que a categoria mudou de 'Melhor Diretor' para 'Direção', prova que o espaço ainda não está equalizado. Em pleno 2026, abrir caminhos ainda é uma necessidade, e não um dado natural. Celebro a inauguração desses novos espaços, mas permaneço alerta à fragilidade de um sistema que demora décadas para reconhecer quem já produz arte e história há muito tempo."

 

AL - O seu trabalho é profundamente marcado pela valorização poética das periferias paulistanas e da militância negra. Sendo cofundadora do Grupo Clariò de Teatro e do Espaço Clariò em Taboão da Serra, como você consegue equilibrar a urgência do discurso politico com o rigor da pesquisa estética nas suas produções?

NC- "Minha arte é popular e contemporânea: conectada com o povo, com a periferia e com as urgências do agora. O teatro é o meu espaço de debate e espelhamento social. Como artista forjada na periferia, com corpo negro e espiritualidade de matriz africana, trago a tecnologia da sobrevivência em mim. Minha prioridade são projetos com responsabilidade narrativa. Minha atuação não precisa ser panfletária para ser política. O manifesto acontece na prática: quando ocupo a cena com uma personagem negra rica em subjetividade e profundidade, estou transformando a estrutura das narrativas negras no teatro e no audiovisual."

 

AL - Atualmente, você está no ar na novela das 19h da Globo interpretando a Valéria, uma personagem complexa que abandonou a filha no passado. Você mencionou que busca 'acolher os motivos' dela para entender essa escolha dolorosa. Como tem sido a recepção do público a esse tema que ainda é um grande tabu na sociedade, e como é a dinâmica de cena com a Gabz?

NC- "A Valéria é um presente porque toca no tabu do abandono materno. No Brasil, o abandono paterno é naturalizado, quase ninguém questiona a ausência do pai da Duda, mas a atitude da mãe gera forte indignação. Julgam o ato como egoísta, mas esquecem a vulnerabilidade da mulher grávida, abandonada pela família e pelo companheiro para viver nas ruas. A Valéria cometeu um ato que os homens praticam todos os dias, mas ela ousou se estruturar e voltar para tentar se reconectar. Ela é o espelho real de jovens mães que tentam aguentar o rojão sozinhas. Dividir essa intensidade com a Gabs foi maravilhoso; o acolhimento dela foi essencial para eu construir a Valéria no meio da novela. Uma parceria marcante pela qual sou profundamente grata."

 

AL - No audiovisual, você protagonizou a série Irmandade e o longa spin-off Salve Geral, que alcançou o topo do ranking mundial de produções de língua não-inglesa na Netflix. Qual foi o maior desafio em dar vida à Cristina e como você avalia a força do cinema de gênero e de favela feito no Brasil para o mercado internacional?

NC- "Irmandade é um marco na minha carreira. Dar vida à Cristina, uma protagonista negra rica em subjetividade e dilemas morais, é de uma riqueza imensa para o nosso audiovisual. O ápice dessa jornada veio com Salve Geral: Irmandade, o primeiro spin-off nacional da Netflix Brasil. Chegamos ao primeiro lugar do ranking global de produções em língua não inglesa, superando fenômenos mundiais como Guerreiras do K-Pop. Esse feito prova que as histórias das periferias e da comunidade negra são fontes de verdadeiras obras-primas que interessam ao mundo inteiro. Sinto orgulho de ver nossas narrativas bem representadas, com o sucesso de duas temporadas consolidadas e um filme cinematograficamente ousado, repleto de planos-sequência memoráveis."

 

AL - Você interpretou Elza Soares em duas ocasiões muito marcantes: em 2016, sob a direção do americano Robert Wilson em Garrincha, e recentemente na remontagem de Elza, O Musical, dirigida por Duda Maia. O que a figura da Elza representa para você pessoalmente e qual é a sensação de emprestar seu corpo e voz para evocar os trejeitos da voz do milênio'?

NC- "Elza Soares é uma das presenças mais importantes da minha vida e a representação máxima da nossa tecnologia de sobrevivência. Mulher negra e periférica, ela teve a vida marcada por tragédias, mas apostou tudo no poder revolucionário da sua voz — a nossa voz do milênio. Elza era moderna demais para caber em rótulos; ela ousou e transitou por todas as linguagens, tornando-se um ícone político e artístico inestimável. O Brasil deve a ela esse pedestal. Após dez anos cruzando caminhos com a sua história, tenho a honra de emprestar meu corpo para trazer o seu canto de volta aos palcos nesta nova montagem do musical. É uma responsabilidade que assumo com máxima intensidade, desejando vida longa a esse espetáculo para que o legado de Elza continue ecoando."

 

"Elza Soares não cabe em rótulos: ela é a nossa maior tecnologia de sobrevivência" - Foto: Nikolle Krüger

 

AL - Para 2026, há muita expectativa em torno do filme Pele de Rinoceronte, onde você protagoniza ao lado de Débora Falabella uma trama que debate as origens do conceito de feminicídio no Brasil através de um caso dos anos 70. Como foi construir a relação com a Débora e com o Irandhir Santos em um set que exigia tanta intensidade e debate sobre a legítima defesa da honra'?" Versatilidade e as Fronteiras das "Clarianas"

NC- "Pele de Rinoceronte foi um desafio delicioso e um marco de imersão artística. Sob a direção sensível de Marcelo Maia, o filme joga luz sobre o feminicídio a partir de um caso histórico. Interpreto a advogada que compõe o núcleo de acusação ao lado de parceiros fantásticos como Irandhir Santos e Dara Lopes, dividindo o protagonismo com a genial Débora Falcão. Nossas cenas, concentradas no apartamento que servia de QG jurídico, exigiram muito preparo e entrega emocional. Nosso desafio era desconstruir a antiga tese da 'legítima defesa da honra', muito forte nos anos 1970, quando o termo feminicídio ainda não existia. Embalados por grandes diálogos, estruturamos uma tese poderosa para provar que o amor não gera violência: o que mata é o ódio. Um projeto profundo, necessário e esteticamente lindo que estou ansiosa para assistir."

 

AL - Além de atriz e diretora, você lidera o grupo de música urbana de raiz popular Clarianas, que lançou recentemente o disco Xirê. Como a Naruna cantora e compositora se alimenta da Naruna diretora de teatro? A música entra nos seus espetáculos como uma extensão da dramaturgia?

NC- "As Clarianas são o meu projeto mais autoral. Ao lado de Martina e Naloana, resgato a sonoridade das cantadeiras do Brasil em cantos de trabalho e de cura que conectam nossa ancestralidade negra e indígena à essência humana. Foi nesse ventre que me firmei como compositora e diretora musical. Compreendo a música como uma extensão da dramaturgia no teatro. O canto acessa o coração, a mente e a alma de uma forma que a palavra falada não alcança. A melodia possui uma força cênica própria que deixa a sensibilidade da plateia à flor da pele. A música e o canto são a minha flecha do sensível."

 

AL - Você já passou pelo teatro, pela TV, pela música e pelo cinema como atriz. Agora, está trabalhando na sua primeira direção cinematográfica com um documentário sobre o poeta Sérgio Vaz. O que te motivou a fazer essa transição para trás das câmeras no cinema / por que escolher o Sérgio Vaz como o fio condutor dessa sua estreia

NC- "A direção no audiovisual tem acontecido de forma muito orgânica na minha vida. Construí minha base dirigindo clipes e documentários para o Grupo Clariô e para as Clarianas, usando toda a bagagem de anos que tenho dentro dos sets de filmagem. Recentemente, tive a honra de assinar a direção dos vídeos da nova turnê do Emicida, Racional. O show é dividido em atos pontuados por narrativas visuais sobre saúde mental interpretadas por atores. Esses filmes são desdobramentos de Tá pra Vencer, peça que dirigi com texto de Johnny Salaberg e trilha do Emicida. Ver o público vibrar com esse trabalho pelo Brasil há um mês tem sido emocionante e uma vitrine linda para o meu olhar atrás das câmeras. Sei que ainda estou engatinhando e focada na linguagem documental, mas sigo estudando para, em breve, estrear na direção de ficções." 

 

 

@ Portal AL 2.0.2.6

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