Sábado, 02 de Maio de 2026
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Além dos palcos: Os desafios e as revelações da eterna bailarina Ana Botafogo

Uma conversa profunda sobre os desafios da carreira, a vida como empresária e o futuro da dança no Brasil

Jornalista Anderson Lopes
Por: Jornalista Anderson Lopes Fonte: Musa do Ballet
02/05/2026 às 13h47 Atualizada em 02/05/2026 às 15h14
Além dos palcos: Os desafios e as revelações da eterna bailarina Ana Botafogo
Ana Botafogo - Foto de Capa: Divulgação

Um encontro de gigantes na Série Libertus! O jornalista Anderson Lopes recebe a maior estrela da nossa dança: Ana Botafogo. No YouTube, a primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro abre o coração sobre sua trajetória internacional, os sacrifícios da carreira e a evolução da presença masculina nos palcos.

Prepare-se para ser inspirado. Movimente-se: seu corpo e sua mente são o seu maior legado!

 

AL: Você tem orgulho de ser brasileira? Onde encontrou as melhores oportunidades em sua carreira: aqui ou no exterior?

AB - Com certeza, tenho um imenso orgulho de ser brasileira. Comecei minha trajetória no exterior e sempre fiz questão de reafirmar minha origem, mesmo em uma época em que o balé brasileiro ainda não tinha tanta visibilidade internacional. Sempre me inspirei em grandes ídolos que nos representavam em diversas áreas, e sinto o mesmo orgulho por nossa gente de bem. Quanto às oportunidades, eu diria que as maiores surgiram aqui no Brasil, embora tenha dançado intensamente no exterior como convidada. O posto de primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio me abriu portas valiosas, trazendo convites internacionais para galas e festivais onde tive a honra de representar o meu país. Por tudo isso, reafirmo: tenho, sim, um imenso orgulho de ser brasileira.

 

AL: Como a dança clássica entrou na sua vida? Qual o significado que ela carrega para você hoje?

AB - A dança surgiu muito cedo. Minha mãe me levou para aprender os primeiros passos perto de casa e o encantamento foi imediato. Hoje, a dança é minha forma de expressão; é o canal que a "Ana artista" utiliza para externalizar suas emoções. Como a dança não utiliza palavras, minha comunicação sempre foi o corpo. Através das coreografias, transmito sentimentos, seja dando vida a um personagem, contando uma história ou interpretando as emoções contidas na música. Vale ressaltar que, da adolescência até minha partida para a Europa, fui moldada pelo ballet clássico. Embora tenha experimentado outros estilos, o clássico foi a base que me formou e me definiu como bailarina.

 

AL: Qual a percepção social sobre a presença masculina no ballet? O preconceito ainda é um entrave para os bailarinos?

AB - Houve uma evolução admirável, mas o preconceito ainda resiste. O grande avanço é que os meninos agora começam cedo; temos uma geração masculina tecnicamente brilhante porque o aprendizado não é mais postergado como antes. Instituições como a Escola do Bolshoi em Joinville e escolas governamentais foram fundamentais para democratizar o acesso e formar talentos para o mundo. Contudo, não podemos ignorar que o preconceito ainda sobrevive, muitas vezes alimentado pela insegurança das famílias. Elas temem um mercado de trabalho restrito no Brasil e a realidade dos salários achatados, o que acaba gerando resistência à escolha da profissão.

 

Onde tudo começou: os primeiros passos de uma trajetória brilhante - Foto: Arquivo Pessoal

 

AL: Que portas o título de primeira-bailarina do Municipal abriu para você?

AB - Muito além da alegria, o título trouxe a missão de representar o ápice da nossa dança. Ele me permitiu conexões globais e convites que impulsionaram minha carreira internacional. Mas o que eu sempre ressalto é que chegar ao topo é apenas o começo; o grande desafio é a permanência. Manter esse título ao longo dos anos exige uma resiliência rara. Os desafios nunca cessam e são multidisciplinares: o corpo, a mente e o intelecto são testados a cada novo espetáculo. É uma jornada de superação que começa na jovem bailarina e se aprofunda na veterana, tornando cada aplauso uma conquista renovada.

 

AL: Como você equilibra as facetas de artista, professora e empresária? Aproveite e nos conte sobre sua marca de produtos para dança.

AB - Sempre soube que a carreira nos palcos teria uma transição, por isso comecei a idealizar projetos que me mantivessem ligada à dança por outros ângulos. Assim nasceu a minha loja: o foco é oferecer desde malhas técnicas de alta performance até uma moda casual e confortável para o dia a dia do bailarino. Hoje, conto com gestores especializados para meus dois grandes braços empresariais: a marca de produtos e minha escola de dança, uma parceria com a Âmbar (Macaé), com filial em Niterói. Gerir tudo isso exige a mesma disciplina que o ballet me ensinou, mas o segredo está na equipe. Supervisiono a pedagogia da escola, mas confio em professores e gestores que fazem a engrenagem girar. Além disso, uma empresa cuida da minha agenda de palestras e aulas pelo Brasil. Recentemente, o digital ganhou força com workshops online, mas minha missão central hoje é estimular jovens talentos e empreendedores, mostrando que a dança traz benefícios imensuráveis para quem pratica e para quem assiste.

 

AL: Você defende a ampliação de projetos de dança em comunidades e bairros periféricos? O que falta para que essas iniciativas prosperem?

AB- Existem muitos projetos valiosos, e eu acompanho de perto o Dançando Para Não Dançar, do qual sou madrinha. É uma iniciativa vitoriosa, com mais de 25 anos de história, mas que hoje enfrenta dificuldades severas. Acredito profundamente que, quando um projeto é gerido com seriedade e competência técnica, ele se torna um celeiro de talentos. O impacto é real: temos bailarinos formados em comunidades que hoje brilham em companhias no Brasil e no mundo. Mais do que formar artistas, esses projetos transformam famílias inteiras. O que precisamos agora é que o setor privado volte a olhar com responsabilidade para essas iniciativas. Projetos históricos não podem morrer por falta de apoio; precisamos garantir que essas portas continuem abertas para o futuro.

 

AL: O que passa pela sua mente no instante em que você pisa no palco diante do público?

AB - No momento em que piso no palco, minha mente é inteiramente da personagem. Minha única preocupação é com a interpretação e com a verdade do que estou vivendo ali. Na realidade, eu só volto a pensar no público quando as cortinas se fecham; naquele instante, meu maior desejo é que eles tenham compreendido a mensagem e, acima de tudo, se emocionado. O aplauso não é apenas um som, é a recompensa final e a confirmação de que a conexão aconteceu. Mas, enquanto danço, sou apenas a história que estou contando. 

 

AL: Quais são os seus planos para o futuro? Existe o desejo de retornar às novelas? O que o público pode esperar da Ana Botafogo, bailarina e atriz?

AB- Minha prioridade é retomar o que ficou em pausa: festivais, palestras e workshops presenciais pelo país. Mas o projeto que mais toca meu coração agora é o lançamento da minha biografia. O livro já está escrito e estamos nos ajustes finais. É um trabalho minucioso de pesquisa realizado pelo meu pai, Ernani Ernesto Fonseca, que registrou cada palco onde pisei, ilustrando minha trajetória com críticas e reportagens da época. É uma obra de pesquisa incrível. Quero que esse livro seja um incentivo para as novas gerações. Desejo mostrar que a vida de uma bailarina não se faz apenas nos grandes palcos, mas em palcos variados e para públicos diversos. O que importa é que o prazer e a alegria de dançar são imensuráveis e universais, independentemente de onde a cortina se abra.

 

Agradecimento:

Atriz e Bailarina, Ana Botafogo

Assessores de Imprensa, Cláudia Tisato e Alexandre Aquino

Theatro Municipal do Rio de janeiro

Presidente da Fundação TMRJ, Clara Paulino

 

 

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