Tuiuti levanta uma reflexão na Avenida: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a Escravidão?”

Escravaria com críticas sociais

A Tuiuti foi a segunda agremiação a desfilar na Marquês de Sapucaí na madrugada desta segunda-feira (12) trazendo à tona o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a Escravidão?”

Esta é a “Paraíso do Tuiuti”, escola de samba nascida no bairro Imperial de São Cristóvão

que não mediu esforços ao recontar a história da escravidão no Brasil, aproveitando o momento dos “130 anos do decreto da Lei Áurea”, para tecer uma forte crítica ao racismo e às desigualdades ainda encontradas pelos trabalhadores brasileiros – os descendentes de hoje dos cidadãos negros escravizados do passado.

Originária do idioma “tupi”, “Tucuruvi” significa “Rio do Lamaçal” (referência à Batalha de Tuiuti, na Guerra do Paraguai, ocorrida em 24 de maio de 1866; e ao pássaro que atende pelo nome “tuiuti”); e metaforiza a história de resistência de uma comunidade que lutou para existir em meio às impossibilidades sociais ao longo de 2 séculos.

 

 

Protagonista central das principais transformações físicas e sociais no Rio de Janeiro, a Comunidade do Tuiuti presenciou a chegada da família real portuguesa em 1808, fugida exército de Napoleão. Fato este, que cuminou na transformação da nossa cidade, de maneira impactante – motivando o acelerado progresso de uma pacata região colonial para uma metrópole imperial, sede do novo poder, representado pelo Palácio Real de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, vizinho ao Morro do Tuiuti.

A inauguração da linha férrea em 1858 e um novo sistema de bonde em 1870, trouxe o palácio para dentro da cidade em processo de modernização, referenciando o Tuiuti no futuro próximo como uma proposta de recomeço para negros libertos, formadores da classe operária pobre.

No entanto, a decadência aristocrática se misturava com a opressão cruel sob personificação da escravidão doméstica, e com a “abolição da escravatura” em 1888 e a “proclamação da República” um ano depois, a desigualdade endereçada ao negro tomou outro tipo de forma:

empurrados de seus cortiços no centro do Rio, destruídos pelas reformas urbanas do “Prefeito Pereira Passos”, escravos e pobres migrantes encontraram no Morro do Tuiuti (embora não haja registro sobre quem foram seus primeiros ocupantes), seu novo lar.

 

 

Portanto, trazer à Avenida do Carnaval um tema tão profundo como a escravidão, é mais do que simplesmente buscar um dado histórico fora dos livros didáticos, mas é reviver um Morro do Tuiuti que resistiu e que ainda resiste às dificuldades de Brasil construído com o suor e o sangue de uma Realeza sequestrada da Mãe África, aqui deixada à contragosto, e sem direito a recomeço!

 

Confira: Bambas do Samba 2° Edição Camarote Rio Samba e Carnaval 2018

 

Independente à busca por um título de Campeã, obrigado “Paraíso do Tuiuti”, por sua prestação de serviço à nossa sociedade.

Obrigado “Seu Sirley”, pelas lindas histórias contadas a mim, sobre o nascimento dessa humilde escola no quintal de sua avó, cujo crescimento é revelado à luz do Conhecimento neste Carnaval ao lado das grandes Escolas.

 

 

 

 

 

Por – Andrea Lacocca – 

Jornalista / Assessora de Imprensa

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