
Há artistas que passam a vida inteira procurando um lugar cativo na cena. Liane Venturella parece ter encontrado o seu justamente por se recusar a fixar-se em um só. Atriz, diretora, dramaturga, preparadora de elenco, professora, produtora e figurinista, a artista gaúcha atravessou as últimas quatro décadas desafiando fronteiras estéticas, sem jamais abandonar o palco ou se afastar da inquietação que move seu trabalho. Atualmente, ela celebra essa marca histórica em solo carioca, integrando o elenco de Frankinh@ — Uma História em Pedacinhos, espetáculo infantil do Coletivo Gompa (RS) em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio) até o dia 15 de novembro.
A temporada no Rio de Janeiro é o mais recente capítulo de uma trajetória essencialmente plural. Natural do Rio Grande do Sul, Liane iniciou seus passos na atuação em 1984. No começo dos anos 1990, mudou-se para Londres, período crucial onde aprofundou suas pesquisas em teatro físico, mímica e máscaras corporais — elementos que se tornaram as principais assinaturas de seu percurso. Na Europa, estudou com nomes expressivos como Ronald Wilson e Lorna Marshall, formou-se pela prestigiada Desmond Jones School of Mime and Physical Theatre e frequentou as aulas do mestre Philippe Gaulier.

Ocupação Gompa Frankenstein no CCBB Rio celebra a arte para todas as idades com interatividade e o talento marcante de Liane Venturella - Foto: João Mello
De volta ao Brasil, essa bagagem técnica e corporal oxigenou parcerias com companhias e diretores de diferentes gerações. Liane colaborou com coletivos emblemáticos como Teatro di Stravaganza, In.Co.Mo.De-Te, Gente Falante Teatro de Bonecos, Mosaico Cultural e Máscara EnCena. Sua versatilidade também a levou aos bastidores da dança e da música erudita, assinando direções cênicas para a Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre e para a Orquestra Villa-Lobos. Como professora e preparadora de atores, tornou-se uma figura pedagógica central, moldando os processos que ajudam novos talentos a ocupar o espaço cênico.
Essa disposição visceral para experimentar reflete-se em uma coleção de reconhecimentos. Em Geppetto, montagem na qual assina a direção cênica e a dramaturgia, o trabalho foi laureado com quatro Prêmios Açorianos de Teatro e conquistou projeção ao ser selecionado entre 173 espetáculos do país para a categoria Destaque Nacional do 36º Prêmio Shell de Teatro. Já em Imobilhados, do grupo Máscara EnCena, Liane acumulou as funções de direção, dramaturgia e figurinos, faturando os prêmios Açorianos e Braskem de Melhor Direção, além de levar a produção a um festival internacional de máscaras no Canadá.
Nas telas, o trânsito da artista mantém o mesmo vigor do tablado. Com participação em mais de vinte produções cinematográficas, Liane atuou na cuidadosa preparação de elenco de longas aclamados como Yonlu, Raia 4 e Casa Vazia. Na televisão e no streaming, o reconhecimento massivo consolidou-se em produções de forte impacto social. Na minissérie O Complexo, deu vida à densa delegada Lúcia. Recentemente, emocionou o público no telefilme Caju, Meu Amigo, exibido no Cine BBB e na Tela Quente, onde interpretou Nice — uma mulher que perde a casa nas devastadoras enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul. O drama, protagonizado ao lado de Vitória Strada, jogou luz nacional sobre o talento lapidado na cena sulista.

Sua filmografia guarda espaço, ainda, para a delicadeza documental. Em À Borda da Vida, produzido pela Venturella Produções em parceria com o Coletivo Gompa, Liane divide a tela com a própria mãe, Lia Regina Carvalho Venturella. Com roteiro coassinado pela premiada diretora Camila Bauer, o documentário investiga com olhar íntimo e real as complexidades do envelhecimento, do cuidado, da dependência e do afeto filial.
O reencontro atual com o público do Rio de Janeiro se dá através da lúdica e sensível Frankinh@ — Uma História em Pedacinhos. Dividindo o palco com Fabiane Severo e Thiago Ruffoni, a peça bebe na fonte do clássico Frankenstein para narrar as desventuras de Victor, um menino solitário que decide fabricar sua própria companhia, descobrindo que o afeto real foge de qualquer idealização. Costurando teatro, ciência, ilusionismo e humor, o espetáculo discute aceitação e alteridade — temas que dialogam perfeitamente com a própria trajetória de uma artista que fez do trânsito entre linguagens sua maior morada.
Ao completar quarenta anos de dedicação à arte, Liane Venturella prova que a permanência na cena cultural não se faz por repetição, mas por metamorfose. Entre a escrita, a atuação, os figurinos e a pedagogia, sua assinatura continua sendo o próprio movimento.
SERVIÇO:
Espetáculo: Frankinh@ — Uma História em Pedacinhos
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB Rio)
Temporada: Até 15 de novembro de 2026
Assessoria de Imprensa: -Cláudia Tisato / Alexandre Aquino-
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