Escrever uma história de amor de duas décadas exige saber o momento exato de colocar o ponto final. Para Lionel Messi, esse momento foi escrito à mão, em páginas que carregam o peso de 207 partidas e a dor silenciosa de um luto recente.
O anúncio de sua aposentadoria definitiva da Seleção Argentina, confirmado nesta segunda-feira (31), encerra o capítulo mais vitorioso da história do futebol moderno e abre um debate profundo: como a Albiceleste caminhará sem sua maior divindade?
É o ponto final na história mais bonita do futebol moderno. Lionel Messi anunciou sua aposentadoria definitiva da Seleção Argentina - Foto: Claudia Greco via Reuters
Aos 39 anos de idade, o camisa 10 utilizou suas redes sociais para compartilhar uma emocionante carta de despedida. No texto, o craque revelou o esgotamento físico e mental que o levou a tomar a decisão mais difícil de sua carreira profissional: "Falta pouco tempo e as fases da vida vão se encerrando, e esta é uma que me dói muito. Amo, amei e sempre amarei estar na seleção. Dei tudo de mim, já não tenho mais nada a oferecer".
A matéria exclusiva do Portal AL apurou os bastidores que cercaram a decisão do craque. Messi revelou ao público que a carta de despedida foi escrita originalmente no dia 21 de julho, apenas dois dias após a dolorosa derrota da Argentina por 1 a 0 para a Espanha, na prorrogação da final da Copa do Mundo de 2026.
Naquele momento, ainda nos vestiários nos Estados Unidos, Messi entendeu que havia chegado ao seu limite físico na tentativa de dar mais um título mundial ao seu país. Contudo, o anúncio planejado para o final de julho precisou ser adiado por conta de um forte drama familiar.
No início de agosto, o pai e empresário do jogador, Jorge Messi, faleceu aos 68 anos em Rosario, após lutar contra uma curta enfermidade. Jorge foi o principal tutor, empresário e o homem que convenceu Messi a nunca desistir da Seleção Argentina nos momentos mais turbulentos da carreira. A perda do pai foi o fator emocional definitivo para que o atleta confirmasse sua decisão. "Hoje, depois do que aconteceu com meu pai, estou ainda mais convencido do que antes", acrescentou Messi em uma nota de rodapé na sua publicação.
Messi deixa a equipe nacional ostentando marcas que dificilmente serão alcançadas por qualquer outro jogador argentino nas próximas décadas:
207 partidas oficiais vestindo a camisa principal.
125 gols marcados, sendo o maior artilheiro isolado da história do país e o maior goleador do futebol sul-americano.
21 gols em Copas do Mundo ao longo de um recorde de seis edições disputadas. Ele encerra seu ciclo internacional a apenas um gol do francês Kylian Mbappé no topo histórico do torneio.
Após anos de críticas e a dolorosa frustração de quatro vice-campeonatos (incluindo o hiato de sua breve aposentadoria em 2016), a redenção veio em uma era de ouro tardia sob o comando de Lionel Scaloni. Capitão e líder técnico, Messi ergueu a Copa América de 2021 (encerrando um jejum de 28 anos do país), a Finalíssima de 2022, a histórica Copa do Mundo do Catar em 2022 e o bicampeonato da Copa América em 2024.
Lionel Scaloni enfrenta o maior desafio de sua gestão: reconstruir a identidade tática e a liderança de um elenco moldado para jogar em torno do camisa 10.
A braçadeira de capitão e o protagonismo do vestiário agora devem ser divididos entre lideranças consolidadas, como o volante Rodrigo De Paul (seu companheiro fiel e atual parceiro de clube), o zagueiro Cristian Romero e os meio-campistas Alexis Mac Allister e Enzo Fernández, pilares técnicos da renovação para o ciclo do Mundial de 2030.
Aos torcedores que ainda desejam ver a magia do craque em campo, o consolo está no futebol de clubes. Messi confirmou que continuará atuando profissionalmente nos Estados Unidos. O atacante tem contrato assinado com o Inter Miami CF até o fim da temporada de 2028 da MLS.
Provando que a sua qualidade técnica permanece intacta, o astro argentino marcou quatro gols e deu uma assistência na goleada por 7 a 1 do Inter Miami contra o CF Montréal no último final de semana, assumindo a liderança isolada da artilharia do torneio norte-americano.
A seleção argentina perde seu maior escudo e sua maior referência; o futebol, por sua vez, assiste ao fechamento das cortinas para o maior capítulo internacional de um jogador neste século.
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