O fantasma de novas ameaças biológicas voltou a dominar o noticiário internacional após a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciar o monitoramento de um surto de hantavírus em um navio de cruzeiro na América do Sul. No Brasil, embora o Ministério da Saúde descarte o risco de uma nova pandemia ou de ligação direta com o evento internacional, as autoridades acenderam o alerta: a hantavirose é uma doença endêmica no país e carrega uma das taxas de letalidade mais brutais da medicina moderna, matando cerca de 46% das vítimas.
Até o momento, o Brasil já confirmou sete casos e uma morte decorrentes do vírus. O óbito ocorreu em Minas Gerais, envolvendo um homem de 46 anos infectado após contato com roedores silvestres em uma área de lavoura no Alto Paranaíba. O caso isolado reforça o caráter histórico da doença no país, que registrou 35 casos e 15 mortes ao longo do ano anterior.
O inimigo invisível nos galpões e lavouras
Diferente de vírus respiratórios comuns, o hantavírus não depende do contágio entre humanos para fazer estragos no território nacional. O perigo real está escondido na poeira de locais fechados, galpões de ferramentas, paióis e áreas rurais.
Os hospedeiros do vírus são os roedores silvestres. Eles eliminam o patógeno de forma contínua através da urina, fezes e saliva. Quando essas secreções secam, transformam-se em uma poeira microscópica contaminada. O simples ato de varrer um ambiente fechado sem a proteção correta faz com que essas partículas flutuem, permitindo a infecção por inalação.
Da "gripe forte" à sufocação em poucas horas
O grande desafio da hantavirose mora na velocidade de sua evolução clínica. O período de incubação pode variar de 3 a 60 dias. Quando surgem, os primeiros sintomas são idênticos aos de uma gripe ou virose comum:
-Fevere alta e repentina
-Dores musculares intensas (principalmente nas costas e coxas)
-Dor de cabeça e fadiga extrema
-Náuseas, vômitos e dor abdominal
Contudo, após a fase inicial, o vírus ataca agressivamente os pulmões e o coração, desencadeando a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). Em poucas horas, o paciente manifesta tosse seca, queda abrupta da pressão arterial e falta de ar severa. O acúmulo de líquido nos pulmões impede a respiração, exigindo intubação e suporte de UTI imediato.
Uma doença sem cura ou vacina específica
A medicina ainda corre atrás do prejuízo quando o assunto é o hantavírus. Não existe um tratamento antiviral específico e nem vacina disponível no Ocidente. Diante do diagnóstico confirmado por exames de sorologia do SUS, a única alternativa médica é o suporte intensivo para manter o paciente vivo enquanto o próprio corpo combate a infecção.
Especialistas da Fiocruz alertam que a informação e o manejo ambiental correto continuam sendo os escudos mais eficientes. Ao limpar locais fechados há muito tempo ou com indícios de ratos, a regra de ouro é nunca varrer a seco. Deve-se abrir portas e janelas para ventilar o espaço por pelo menos uma hora e, em seguida, borrifar água sanitária diluída para neutralizar o vírus no chão antes de realizar a remoção da sujeira com panos úmidos. O uso de máscaras de proteção respiratória adequada e luvas é indispensável para trabalhadores rurais e moradores de regiões periféricas.
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