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Veto no Rio de Janeiro ao "Dia da Cegonha Reborn" levanta debate sobre uso terapêutico de bonecas

Veto no Rio de Janeiro ao "Dia da Cegonha Reborn" levanta debate sobre uso terapêutico de bonecas

Jornalista Anderson Lopes
Por: Jornalista Anderson Lopes
02/06/2025 às 16h48
Veto no Rio de Janeiro ao
Marcelo Senise // Crédito: Marcus Vinícius Noronha

Proposta de criar data oficial para bonecas reborn é rejeitada e reacende discussões sobre saúde mental, vínculos afetivos e solidão na era digital

Nesta segunda-feira (02/06), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), publicou em seu instagram, a imagem do veto do projeto de lei que criava o "Dia da Cegonha Reborn" no calendário oficial da cidade. A proposta buscava reconhecer o trabalho de artesãs que produzem as bonecas reborn — réplicas hiper-realistas de bebês. Ao justificar a decisão, Paes comentou nas redes sociais: "Com todo respeito, mas não dá." O episódio viralizou e reacendeu discussões que vão muito além do veto institucional: afinal, o que revela o crescimento desse fenômeno?

Em busca de afeto em tempos de solidão digital, as bonecas reborn vêm ocupando espaços cada vez mais diversos — lares, clínicas, instituições geriátricas — e também o centro de debates públicos e acadêmicos. Para alguns, funcionam como ferramentas de conforto emocional; para outros, levantam preocupações sobre vínculos artificiais, substituições simbólicas e prioridades distorcidas diante de crises reais como o abuso infantil online.

A princípio, o uso das reborn é associado a pessoas que enfrentam perdas gestacionais, infertilidade ou traumas emocionais, além de seu uso terapêutico com idosos diagnosticados com demência. Mas, segundo especialistas, o uso sem acompanhamento psicológico pode camuflar dores profundas e lutos não elaborados. O problema, alertam, não está na boneca em si, mas na função afetiva que ela assume ao substituir relações humanas reais.

Para o sociólogo e especialista em comportamento digital Marcelo Senise, o fenômeno das reborn é reflexo de uma sociedade emocionalmente fragilizada. "Essas bonecas não são o problema — são sintoma. Elas oferecem a ilusão de um afeto sem conflito, de uma presença que nunca abandona. Mas isso revela o quanto estamos tentando substituir o imprevisível das relações humanas por vínculos artificiais", diz.

Senise ainda alerta para o desvio de foco que o debate pode gerar. "Enquanto parte da sociedade demoniza as reborn, ignoramos que o Brasil está entre os maiores consumidores de pornografia infantil do mundo — e Brasília lidera esse ranking nacional. É um paradoxo cruel: condenamos simbolismos enquanto fechamos os olhos para crimes reais", afirma.

A crítica é clara: enquanto discutimos o consolo simbólico das reborn, deixamos de enfrentar as feridas abertas da era digital. Operações como a "Turko", da Polícia Federal, revelam redes subterrâneas de exploração infantil na internet. E, ao mesmo tempo, cresce o culto a experiências controladas — sejam elas digitais ou físicas — como forma de escapar da imprevisibilidade dos vínculos reais.

 

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"Estamos vivendo uma infantilização afetiva coletiva. Procuramos afeto que não frustre, presença que não contrarie, e relações que não desafiem. Seja nas redes sociais ou em objetos como as reborn, o que se busca é controle emocional. Mas isso é justamente o oposto da experiência humana", diz Senise.

As bonecas reborn, portanto, não devem ser tratadas como vilãs — nem como solução milagrosa. Elas apenas evidenciam uma urgência: a de reconstruirmos espaços de vínculo, escuta e convivência reais. "Em vez de julgar o que consola, é preciso entender o que dói. E, mais do que nunca, voltar a construir relações que não possam ser desligadas com um botão", conclui o especialista.

 

-JJ Assessoria de Imprensa-

Bebê Reborn (Foto: Divulgação / Internet) / Prefeito Eduardo Paes (Foto: Wikipédia)

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